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Vivendo no fim dos tempos

“Você tem que agir como se fosse possível 

transformar radicalmente o mundo. 

E você tem que fazer isso o tempo todo." 

Angela Davis

 

As implicações de se viver em um estado de exceção (a pandemia, as guerras) são inescapáveis: você precisa se posicionar afinal estamos diante da possibilidade do fim dos tempos (humano, é claro). 

Segundo Slavoj Žižek, os quatro cavaleiros do apocalipse já vagueiam livremente pelo planeta: a crise ecológica, as consequências da revolução biogenética (lembram-se dos transgênicos? Eles inventaram um ecossistema que está perdendo a capacidade de se regenerar...), os desequilíbrios da sociedade de mercado (a luta por matérias-primas, ou seja, comida, água e fontes energéticas) e o crescimento explosivo de divisões e exclusões sociais. 

Um exercício de pensamento balizado pela lógica e pela ética deveria fundamentar as decisões de cada sujeito sobre como se posicionar perante à ameaça de extinção do mundo civilizado – e mesmo da existência biológica do homo sapiens sapiens. Mas como esperar da sociedade o mínimo de raciocínio apurado quando governos incentivam o ódio às ciências, à filosofia e às artes (ferramentas fundamentais para esta tomada de decisão)? 

A arte, em especial, possui modos diversos de se relacionar com a realidade. Há artistas que deliberadamente a omitem de seus trabalhos. Andam pelo mundo como se vivessem em um outro. É um gesto radical, reativo. Muito difícil de se realizar plenamente. Porque o ser humano faz parte desse “tudo o que existe = realidade” e se retirar dele significa se evadir da linguagem, algo que para a psicanálise, por exemplo, não é possível.

Nesta exposição, há dois modos de se enfrentar a realidade, de tomar decisões. De uma parte, existe a luta que a artista tem travado nos últimos anos na intimidade do ateliê, na fatura com a matéria, com os elementos que constituem a pintura. Um tanto enfastiada com os limites da tinta acrílica, decidiu encarar um retorno à tinta a óleo. A ideia não é simplesmente repetir a técnica dos grandes mestres da pintura, mas sim propor um outro uso, uma diferença. 

De outra parte, está a postura da artista em meio à comunidade em que vive. Absolutamente envolvida com a educação, com o circuito artístico, com a questão indígena, com a cultura do livro, com a discussão pública através da fala, de textos e de comentários sobre o estado atual das coisas, Janaína Corá tem feito de tudo, menos se omitir. Seu trabalho artístico é uma oportunidade privilegiada para acessarmos o seu rico universo psíquico e espiritual. 

     

Fernando Boppré, curador

Xapecó, junho da peste, 2020

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